21.2.03

ELIANE CANTANHÊDE


Fome zero, propostas mil


BRASÍLIA - Ao oferecer um churrasco hoje e amanhã para os governadores, Lula põe a mão na massa e assume definitivamente o comando político do seu governo. Chega de intermediários. Agora é com Lula, sua lábia e sua capacidade negociadora.

Se a carne é de primeira, os temas são indigestos. Lula diz que a situação é "gravíssima", enquanto seu governo aumenta os juros, o superávit fiscal e as tarifas públicas, apavorado com a inflação. Do outro lado da mesa, os governadores não estão mortos de fome, mas de falta de recursos. Em resumo, o presidente vai dizer que não tem dinheiro, e os governadores vão responder que precisam desesperadamente de dinheiro. Os funcionários públicos que se cuidem!

Se há algum tipo de consenso entre governo federal e governadores do PSDB, PMDB, PFL, PSB e até do PT é que a reforma da Previdência é inadiável. E, com ela, a discussão de medidas nada doces: regime único, aumento da idade de aposentadoria, fim do salário integral para aposentados, contribuição de inativos. Aécio Neves mandou para a Assembléia de Minas projeto reduzindo seu salário em 45% e já chega com uma pergunta incômoda: "E o teto e o subteto do funcionalismo?". Os presidentes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário não regulamentaram.

Contra funcionários, é fácil. Depois, vem a reforma tributária, e aí a coisa complica. Estados produtores de um lado, importadores de outro, e Palocci querendo "federalizar" o ICMS, o imposto estadual. Um mais um e mais um somam um problemão.

Lula, portanto, terá um grande dia hoje, daqueles de que ele gosta desde os tempos de líder sindical do ABC. Impasses, interesses divergentes, medidas duras, tudo uma confusão. E ele, no meio, dando ordem à bagunça.

Se do Torto sair um conjunto consistente de propostas, a vitória é de Lula. Se tudo se resumir à tradicional nota genérica de três parágrafos, a derrota é dele. E não é hora. Com o seu governo apanhando tanto e tão cedo, a prioridade política é justamente essa: preservar o próprio Lula.