14.2.03

ELIANE CANTANHÊDE


CPI à vista


BRASÍLIA - O espectro de uma CPI para apurar o monstruoso grampo da Bahia ronda o Congresso Nacional. E está para se materializar.

Por enquanto, as investigações caminham pelos passos da Polícia Federal, da Procuradoria da Câmara e, como sempre, da imprensa. Mas os indícios de que o governo baiano seja o mandante do crime sugere desde já uma CPI -a primeira da era Lula.

O motivo é legítimo: quatro deputados federais foram grampeados entre centenas de outras vítimas. O escândalo caracteriza um evidente ataque ao Estado de Direito numa das unidades da Federação.

Uma coisa é o grampo clandestino, ilegal na origem. Outra é o grampo pretensamente legal, que passa por assinaturas e instâncias da Justiça, da polícia e, evidentemente, do poder político. Ou seja, de governos. Isso é terrorismo de Estado.

Apesar da saia justa -porque o principal suspeito é o grupo do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL)-, o PT e o governo federal já não têm mais alternativa: é ir até o fim ou ir até o fim para identificar responsabilidades.

"A situação é gravíssima, e o PT é radical contra esse tipo de coisa", disse o presidente do partido, José Genoino, admitindo a hipótese de CPI.
"E se a culpa recair sobre um peixão graúdo do Congresso que é aliado ao governo?", perguntei-lhe. "O Parlamento tem de ter coragem de cortar na própria carne", respondeu, falando "pelo PT, não pelo governo". Mas ele não é tucano nem marciano, é petista e unha e carne com o Planalto de Lula e Zé Dirceu.

Para Lula, como para qualquer governo, é péssimo abrir o primeiro semestre de trabalhos já com uma CPI. Mas é melhor isso do que deixar o escândalo
passar em branco.

Lula não deve livrar a cara nem incentivar a desgraça de ninguém, mas já há petista reconhecendo o que o experiente Genoino jamais poderia admitir: que pode ser um bom negócio deixar o processo rolar e se livrar logo, e cedo, de um potencial problema como ACM. Basta lavar as mãos.