6.2.03

ELIANE CANTANHÊDE

Radicalizando com os radicais

BRASÍLIA - Situação do governo Lula e do comando do PT: "Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come".
Se decidirem fingir que a senadora Heloísa Helena não se insubordinou contra uma orientação partidária, podem estar abrindo a porteira para os "radicais" em geral. O chamado "racha interno".

Se, ao contrário, decidirem agir e punir a senadora, poderão estar cutucando com vara curta toda a bicharada da CUT, do MST e de outros setores à esquerda do PT. O racha explícito -e não só congressual.

Heloísa pode receber advertência pública por não votar em Sarney para a presidência do Senado, mas o que ela alegou parece razoável: que não poderia apoiar oligarquias que o PT sempre combateu. Quantos petistas não concordam com ela?

A lua-de-mel do governo Lula não deve resistir às votações das reformas, ao fim da aposentadoria com salário integral, à diminuição da idade de aposentadoria e a essas propostas que batem na alma e no corporativismo dos funcionários públicos.

É justamente quando a senadora pode virar mártir de uma "causa" -o respeito ao discurso histórico, às promessas de campanha e aos dogmas petistas-, causando efeito-cascata em setores mais corporativos ou mais duros contra o PT no governo. A isso se some a ameaça de insatisfação da classe média. A gasolina, o ônibus, a luz e o telefone aumentam. O médico particular e a psicóloga já cobram uns trocados a mais. A empregada e a cabeleireira alegam que estão ganhando pouco.

Se fizer a besteira de ir para o PSTU ou para o PCO, Heloísa vai ficar falando sozinha, perderá os holofotes da imprensa e colocará o mandato em risco na próxima eleição. Mas, se ficar no PT, pode se transformar em cara e voz dos descontentes. Radical que é radical adora essas coisas.
José Genoino, presidente do PT, ensina que "o governo Lula é o grande projeto do partido". Só falta combinar com os adversários, e eles estão justamente nas esquerdas e no PT. É aí que o bicho pega.