13.2.03

ELIANE CANTANHÊDE

Indecência


BRASÍLIA - A lista de grampeados da Bahia era de quatro, passou para dezenas, já beira os 500 telefones com pedido de grampo. Não será surpresa se continuar aumentando.

A ditadura podia tudo: grampear, torturar, escamotear e não dar a menor satisfação. Os inquéritos da bomba do Riocentro e das mortes de Wladimir Herzog e Manoel Fiel Filho eram simplesmente engavetados.

As coisas mudaram um pouco. É verdade que nem a ditadura tinha condições, nem técnicas, de grampear quase 500 telefones num só Estado. Mas não deve ser mais possível manipular a Justiça e a polícia para violar a privacidade alheia. Com jeitinhos grosseiros, como anexar números de telefone à mão em processos que não têm nada com o sujeito.

Cidadãos tiveram suas conversas, seus segredos, suas confidências mais íntimas violados dessa forma nojenta. Entre eles estão a mulher e a filha de 23 anos do ex-deputado Benito Gama, que já foi ligado a ACM, rompeu com ele e acaba de perder uma nomeação federal por veto do senador -e em pleno governo do PT.

Um governo, aliás, que deu uma boa mão para eleger ACM presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado mesmo depois das suspeitas de que ele teria violado votos secretos na mesma instituição.

A violência de um grampo ilegal, antiético, imoral e indecente no telefone de uma moça de 23 anos é de arrepiar. Nesse caso, não há dúvidas: os réus estão de um lado, o que grampeou, e as vítimas estão do outro, o que foi grampeado.

Ninguém quer prejulgamentos, mas, a cada nome que surge da lista de grampeados na Bahia, mais as suspeitas constrangem o governo e o Congresso, porque recaem sobre o grupo do senador Antonio Carlos Magalhães. Antes, eram seus principais adversários políticos. Agora, desafetos que não são acusados de nada e nem sequer têm mandato político.

A pergunta do Congresso, da polícia e da Justiça tem de ser: quem grampeou? Para que pague por isso