19.2.03

CLÓVIS ROSSI


A outra superpotência

TÓQUIO - Deu em "The New York Times", o jornal paradigmático do centro do império: "O público pode ser a nova superpotência". O texto, de Patrick E. Tyler, refere- se, como é óbvio, às formidáveis manifestações do fim de semana em boa parte do mundo -que, na opinião do jornal, "atrasaram o momento da guerra".

Não tenho como discordar. Há muito tempo venho tentando mostrar que a chamada sociedade civil organizada -ONGs, redes informais de cidadãos antenados- está atropelando partidos políticos, governos e universidades e se transformando no porta-voz mais autorizado de uma ponderável fatia do público, em especial nos países desenvolvidos.

Se se considerar que nenhum país tem condições de opor-se de fato aos desígnios imperiais dos Estados Unidos, a simples perspectiva de que o clamor público expresso nas ruas (o chamado "voto com os pés") possa de fato brecar a guerra, ainda que temporariamente, já basta para caracterizar o movimento como a outra superpotência.

Mas atenção. Esse pessoal só consegue se organizar em grandes massas quando se trata de ser contra alguma coisa. Contra a guerra, agora, contra a Organização Mundial do Comércio em Seattle, faz quatro anos, contra o Fundo Monetário Internacional em Washington e em Praga etc. Quando se trata de ser a favor de alguma coisa, defendem bandeiras pontuais (o ambiente, os golfinhos, a floresta amazônica, uma infinidade de questões). São todas importantes, é claro, mas faltam a cola que as mantenha juntas e a bula para colocá-las em prática.

As maiores manifestações no mundo desde a Guerra do Vietnã demonstraram que a idéia de que "um outro mundo é possível" tem adeptos em número portentoso. Falta definir claramente como construí-lo.

PS - O incrível, numa hora dessas, é que o personagem do Brasil continue sendo uma figura tão menor como Antonio Carlos Magalhães.