Picadinho diário de jornalismo e mídia em geral. Na Rede desde 1996
6.5.09
Publicidade x independência jornalística
Comentador do post abaixo dá boa dica de leitura em espanhol (aqui). E faço um adendo: os problemas apontados pela pesquisa que gerou a matéria tendem a agravar-se numa época de crise como a que passamos.
Legais e oportunas as matérias da Rio do Globo sobre o caos dos transportes urbanos e as pedrinhas portuguesas. Embora a primeira tenha fica muito apertada numa página (merecia pelo duas ou uma página em dois dias), ambas são honestas e falam de coisas importantes para o cotidiano do carioca (o texto sobre o barulho também foi nessa linha e merece elogios para pauta, mas nem tanto pela edição sufocada). Não vão ganhar prêmio, mas dão muito mais credibilidade ao jornal diante do seu público do que essos ou embratéis, e não atacam a inteligência de ninguém, como no caso da remoção de favelas.
Muito bacaninha a matéria sobre as balas Juquinha, na economia do Globo. Nadou contra duas correntes: a do pessimismo depressivo das páginas da área e a flta de criatividade das pautas econômicas.
Boa a a iniciativa do Globo de realizar (ou divulgar) pesquisas sobre temas do dia-a-dia, como fez com as drogas e o transportem público. Vem cobrir em parte uma lacuna estatística que devia ser preenchida mesmo pelos órgãos públicos - que até hoje não aprenderam que "quem não conta e mede, não administra".
Lamentável, no entanto, no caso da divulgação da pesquisa sobre o transporte público, do "parti pris" contra as vans, em parte causado pelo tradicional preconceito das O.G. com qualquer coisa que cheire a povo (motorista de van, em geral, é subempregado oriundo das reengenharias,PDVs e crises da década de 90) e parte pelo compromisso com a Fetranspor, que sempre comparece com aquela meia página de "informe publicitário".
O Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro promoverá a segunda edição do curso sobre Indicadores Econômicos para jornalistas e outros profissionais que trabalham com o tema. Serão dez aulas, todas as sextas-feiras, a partir das 18h30min, começando do dia 17 de outubro, na sede do Conselho (Av. Rio Branco, 109 - 16º).Mais informações no site cursos@corecon-rj.org.br ou pelo telefone 21 2103-0119.
Muito boa e pertinente a matéria de Cássia Almeida, n'O Globo de ontem, sobre a luta do Ministério e do Ministério Público do Trabalho contra a vergonha do trabalho em condições análogas à escravidão.
Muito legal o lide da matéria sobre o abandono do Palácio dos Esportes do Rio, de autoria do Ary Cunha. Um lide bem sacado e executado é coisa tão rara que a gente tem que registrar. Valeu mesmo, Ary!
O Centro de Cultura e Memória do Jornalismo será lançado amanhã (9), na Academia Brasileira de Letras (Avenida Presidente Wilson 203, 1º andar, Centro). Leia aqui as intenções do CCMJ.
Impressionante a matéria do Mauro Ventura, publicada hoje no Globo, sobre o "julgamento" do jovem ladrão pelos traficantes. Como o Mauro é um sujeito sério, quero crer que a reportagem não tenha qualquer cascata, como aquela da Mangueira.
Ponto que considero interessante é que, em priscas eras, uma fonte como o pastor teria o JB como opção para passar uma matéria como essa, destinada a provocar impacto na sociedade. Hoje, porém, só tem mesmo O Globo, apesar dos esforços de O Dia.
As matérias do José Casado no Globo sobre a participação de Dom Eugênio Salles na proteção aos refugiados políticos sul-americanos durante a era das ditaduras no subcontinente são importante registro histórico por esclarecer a participação do arcebispo naquele momento histórico e também algumas lembranças, provocando algumas reflexões em quem viveu aquele período de outros ângulos. Se tiver interesse em algumas delas, clique aqui.
Pensando bem, tem um banho de sangue diário aqui, não é? Afinal, o que são as incursões da PM carioca nos morros e da Rota na perifa de Sampa? Nelas, há uma matança generalizada de pretos pobres ou quase-pretos e poucos ligam (e quem liga é sacaneado pelas tropas de elite de plantão). Quer dizer, não liga aqui, no Sul Maravilha. Lá em Salvador, a PM foi fazer o mesmo com quatro jovens da periferia e o pau comeu na "maior cidade negra fora da África". Não sabia? Pois devia ler a Carta Capital. Se ficar só nos jornais e revistas da nossa grande imprensa, vai levar bola nas costas sobre o que ocorre nesse Brasilzão a fora.
Tivemos que esperar até o domingo de carnaval, mas, afinal, O Globo fez a matéria que gritava para ser escrita: as relações entre os bicheiros e traficantes com as escolas de samba, reclamada há tempos por um Alto Conselheiro da Colegunhas. E valeu a espera. As matérias de Sérgio Ramalho e Dimmi Amora - especialmente a primeira - estão muito boas. Parabéns a todos.
Logo, a estranha página móvel do Globo - das poucas boas coisas do jornal hoje em dia, junto com o Megazine, o Prosa&Verso, as colunas Negócios&Cia e do Arthur Dapieve e mais uma ou duas coisas que devo ter esquecido - aborda as relações entre tráfico e carnaval. O enfoque ia ficando ruim, pois vincula carnaval e samba, como se fossem sempre sinônimos, mas o texto de Ney Lopes aponta essa bobagem e salva a coisa por esse lado. No entanto, ao mesmo tempo em que Lopes critica corretamente a página, também abre a guarda ao passar ao largo do fato de que as próprias comunidades apóiam os bandidos (como está numa matéria da página ao lado, que mostra como a Beija-Flor endeusa Anísio). O desvio do autor é bem flagrado pela turma da página que faz a crítica. No fim, foi um bom início de debate. Agora, é seguir em frente.
As empresas GlobeScan (de pesquisa social) e Synovate (de marketing global) realizaram pesquisa sobre como diferentes países julgam a imprensa, em múltiplas dimensões. Os brasileiros, bem surpreendentemente, se mostraram os mais preocupados (80%) com a concentração da mídia em poucas mãos e também muito críticos quanto à qualidade das informações que lhe são prestadas tanto por empresas de comunicação tanto públicas quanto privadas. A pesquisa, realizada por encomenda da BBC para marcar os seus 75 anos, em sua versão completa está aqui.
Pior é que o Globo publicou o caso dos executivos de bancos suíços presos pela PF. Deu até um alto de página na Economia. Primeira, porém, só para os barnabés mesmo.
Provavelmente pela primeira vez no ano, o Companheiro Gaspari elogiou o governo do Nove-Dedos, no caso palmas para ao bem-sucedido leilão das concessões de trechos de estradas federais. O maior quinhão de encômios foi para a ministra Dilma Rousseff, mas N-D deve ter ficado muito feliz. Grato ao Alto Conselheiro que me lembrou da coluna do CG de hoje.
Não deu nem pra saída. Ao ler o "tema em debate"da página de opinião do Globo, sobre o filme "Tropa de Elite"(que, juntamente com o caso Renan, parecem ser os únicos assuntos do país), fica-se até um pouco constrangido. O coleguinha Jorge Antônio Barros massacra os outros dois articulistas - um ex-comandante do Bope, hilariamente apresentado como "caveira 37" e filósofo"" (coitados de Sócrates, Platão, Hume, Kant, etc), e um coronel PM. Enquanto Jorge constrói um raciocínio com início, meio e fim e sem pretensão de esgotar o assunto ou dar lição de moral, os outros dois escrevem textos que são quase absurdos em sua pretensão de demonstrar sapiência e superioridade moral, não conseguindo, porém, comunicar uma idéia inteira. Dos dois, o pior, longe, é o do tal caveira filósofo. Chega a mesmo a ser surreal em suas citações de Francis Bacon e Gilles Deleuze (só os nomes, pelo menos).
De qualquer maneira, ainda vão servir para algo. Vou dizer para os meus estagiários ler os dois a fim de verem "como não se faz" e compará-los com o de JAB.
Até que a matéria de hoje do Globo sobre a escola do MST na região do Contestado não está muito preconceituosa, para os padrões das OG, bem entendido. Escorregada mesmo só no último parágrafo, o que não chegou a comprometer.
A escolha de Tereza Cruvinel para presidente da TV Brasil (ou lá que nome tenha a nova tevê pública) foi um golaço do Franklin Martins, pela capacidade da profissional. E deve ter acabado com o desconforto da coleguinha que mostrava há tempos não estar bem enquadrada nos ditames de oposicionismo a qualquer preço do Globo. Tanto que, das poucas vezes em que tentou se jogar esse jogo, acabou dando de canela como apontei aqui, estranhando o comportamento.
Os coleguinhas dos grandes veículos vão ficar felizes: terão nova oportunidade de esconder uma boa notícia dos seus leitores/ouvintes/espectadores. Se você quiser ser estraga-prazeres, leia aqui.
Até o Greenspan já disse que a crise financeira de hoje é parecida com as de 87 e 98, mas os coleguinhas brasileiros insistem na mania de contextualizar o mínimo possível, fazendo qualquer acontecimento parecer a-histórico, encerrado em si próprio.
Mas não tema! Tem gente que ainda que informar bem o pobre leitor, dando-lhe ferramentas para pensar. Como esse nosso amigo aqui.
Carla Rocha, Custódio Coimbra, Dimmi Amora, Fábio Vasconcellos e Sérgio Ramalho, sob o comando de Angelina Nunes. Esse foi o "scratch" que o Globo escalou para conquistar mais um Prêmio Esso de Reportagem. E pelo que se viu na primeira matéria da série de reportagens sobre o regime de terror em que vivem os pobres do Rio de Janeiro (sobre o medo dos não tão pobres, o Globo sempre fala), esse grande time tem mesmo chance de conquistar o título almejado. Você já deve saber - e se não sabe, saberá agora - que tenho profundas críticas ao "premismo" que proliferou nos últimos anos, com tudo quanto é entidade oferecendo galardões, como forma de influenciar a agenda pública via pautas de jornal. No entanto, dado o semi-autismo que acomete a imprensa brasileira, se é preciso que haja um prêmio para que um jornal mobilize o melhor que tem para falar de um assunto fundamental como esse que O Globo começou a enfocar hoje, que remédio? Fico na torcida para que as matérias continuem boas como as de hoje, aprofundando mais o tema e - pelamordedeus - evitando de culpar apenas a atual Administração federal pelo atual estado de coisas. Diante da capacidade da equipe citada lá em cima, creio que o bom caminho será trilhado.
Luis Nassif é um bom sujeito. Um tanto marrento, mas do tipo Romário: porque fez por onde. Mas se arrisca a terminar na companhia do Canhoto não por isso e sim por tripudiar sobre formas inferiores de vida. Como Ali Kamel, por exemplo. Leia aqui.
O esforço da produção do programa Momento Pan, do Sportv, proporcionou ontem um dos momentos mais lindos deste Pan-Americano. Para total encantamento do apresentador Marcelo Barreto, de seus colegas de programa - entre eles Lúcio de Castro, cada vez mais perecido com o pai, meu mestre Marcos de Castro - e dos telespectadores que gostam de esporte, estiveram reunidos no estúdio algumas das lendas olímpicas cubanas.
Pude rever a incrível meia-fundista Ana Fidélia Quirot, ainda ostentado as cicratizes - físicas e claramente emocionais também - das queimaduras oriundas do incêndio causado pela explosão de um botijão de gás em sua casa, que a fez perder a criança da qual estava grávida e a deixou com 80% do corpo queimado. Isso dois anos antes de vencer sua especialidade, os 800 metros, no Mundial da Suécia, e três antes de conquistar a medalha de ouro na mesma prova, nos Jogos de Atlanta. Também estavam lá a colossal - em vários sentidos - meio de rede Regla Torres, do poderoso time de vôlei cubano tricampeão olímpico (92, 96 e 2000) e Erik Lopez, multimedalhista que obteve 18 medalhas na ginástica. Mas, sobre tudo e todos no estúdio , imperava mesmo o principesco Teofilo Stevenson, do alto de seu metro e 90. O primeiro tricampeão olímpico de boxe - e até hoje único em Olimpíadas seguidas - , na categoria pesado, esbanjou a classe que sempre exibia nos ringues e ainda um senso de humor fino que só as pessoas realmente inteligentes possuem.
Palavra, depois de tantos anos aposentado do jornalismo esportivo, foi a primeira vez que tive saudade dos tempos de ralação insana que é uma editoria de esportes. Valeu, pessoal!
A idéia é impedir que as telecoms viabilizem sua entrada na TV a cabo só conteúdo produzido fora e, ao mesmo tempo, dar um cjhega pra lá na Globosat e suas parceiras Sky/Direct TV e Net, mas, de qualquer maneira, a proposta da Associação Brasileira dos Radiodifusores (Abra) de que a haja uma lei que exija 50% de produção nacional em meios eletrônicos, é uma boa. Leia mais.
Alvíssaras! Dona Míriam descobriu a História! É uma ótima notícia, pois, a persistir nesse caminho, seu preparo intelectual para discutir as mazelas do Brasil melhorará muito. Claro que como toda neófita, a colunista do Globo cometeu alguns erros elementares e dois deles merecem destaque:
1. Ir ao passado como refúgio do presente: É um erro crasso, pois quem gosta de História sabe que não se foge do presente no passado (para isso a boa é a ficção científica). Bem ao contrário - vai-se ao encontro dele. É no passado que se encontra a explicação do presente. Assim, não é curioso que se veja o presente no passado. É o esperado. A (possivelmente) única particularidade no caso do Brasil é que aqui o passado é muito presente no presente.
2. É preciso sempre relativizar: Como em tudo na vida, há correntes e, assim, ao entrar numa obra de José Murilo de Carvalho sobre Dom Pedro II - que encantou Dona Míriam -, por exemplo, é bom ter em mente que Zé Murilo é monarquista e, mais do que isso, fã confesso de Dom Pedro. Defende mesmo a tese de que ele foi expelido do trono - por um golpe de Estado chamado República - por ser moderno demais para a elite brasileira.
São enganos, que, no entanto, espero não vão fazer com Dona Míriam desanime e pare de estudar História.
Por falar em trabalho decente (na verdade muito mais que isso), Felipe Awi, do Globo, merece ser lembrado para o Prêmio Esso. Ganhar ou não, vai depender dos conchavos de bastidores, mas o jovem repórter merece a indicação pelo belo trabalho que vem fazendo em matérias sobre a esquecida Região Norte do país.