30.12.06
Jogo duplo
Os veículos de comunicação cariocas espumam de indignação com os ataques de criminosos contra os cidadãos ocorridos nos últimos dias. Muito justo, tem que espumar mesmo. No entanto, toda vez que os governos de qualquer um dos três níveis se dispõe a criar condições para desarmar essa bomba, os mesmos veículos atacam os investimentos nas áreas sociais - segurança, saúde, educação, geração de emprego e renda, etc - chamados de gastos públicos e anatemizados como geradores de déficit e inflação.
Vamos ser claros. O que se vê hoje em Rio e São Paulo - e, em medida bem menor, em outras grandes e médias cidades do país - é resultado de pelo menos 25 anos de escolhas erradas em matéria de políticas públicas - isso quando houve políticas públicas. Nesse tempo todo, o mote dos governos, sob o aplauso da imprensa, era "vamos crescer o bolo para depois dividir" (e suas variáveis mais técnicas, como investir em infra-estrutura e diminuir os investimentos sociais).
O Rio de Janeiro é um exemplo claro do que aconteceu nesse último quarto de século. O último governo bom do estado foi o de Faria Lima, que terminou em 77. E ainda assim porque administrou direito os últimos influxos do tal "milagre brasileiro", bem como seus dois sucessores, Chagas Freitas e Leonel Brizola, que, ainda assim, fizeram governos fraquíssimos, sendo bem condescendente. De Moreira Franco ("meu nome é trabalho", "vou acabar com a violência no Rio em seis meses") até hoje foi um desastre só. E onde estava a imprensa carioca nesse tempo todo? Aplaudindo quem lhe convinha (Moreira, Marcelo Alencar) e batendo em quem não gostava (Brizola, casal Garotinho) fazendo parecer que uns eram melhores do que os outros, apesar de todas as provas em contrário. Isso sem contar, claro, o apoio a prefeitos como este inacreditável César Maia e a presidentes como Collor (primeiro ano e meio) e FHC (o tempo todo).
Clamar agora aos céus contra a incompetência dos governantes brasileiros, como se esse quadro tivesse sido montado na semana passada, é uma rematada hipocrisia que só aumenta o ridículo em que vive a imprensa brasileira há anos. Um ridículo histórico que, em 2006, começou.a cobrar seu preço.