27.7.06

 

Sonho de estatístico

   Por falar na questão das cotas, pesquisa do Datafolha publicada na Folha de São Paulo no domingo é o sonho de qualquer estatístico: a distribuição e os gráficos falam por si. Não precisam de explicação de tão claros.

   A pesquisa mostra que 65% dos entrevistados são a favor as cotas para os negros nas universidades e 20% é contra. Entre os que são a favor, 71% tem somente o nível Fundamental de ensino, 65% o Médio e 42% o superior. Ainda entre a maioria a favor, 70% ganha até dois salários-mínimos, 67% está entre os que recebem entre dois e cinco salários, 52% entre cinco e dez, e 39% ganha acima de dez salários-mínimos.

   Já entre 20% contrários às cotas, 16% tem apenas o Ensino Fundamental, 30% o Médio e 55% o superior. Por renda, os mais ricos (acima de dez mínimos) são maioria com 57%, vindo depois, com 42%, e os que recebem mensalmente entre cinco e dez mínimos, com 28% os que ganham entre dois e cinco salários. Finalmente, entre os que percebem por mês menos de dois salários-mínimos, apenas 17% são contra as cotas para os afro-brasileiros.

   A pesquisa mostra, com clareza impressionante, que quem é contra as cotas tende a estar no topo da pirâmide social e, logicamente, pretende continuar ali e garantir que seus descendentes ocupem o mesmo lugar. Já os mais pobres possuem a consciência de que só as cotas farão com que eles e seus filhos e netos tenham alguma chance de atingir o curso superior e, assim, galgar um lugar melhor na estratificada sociedade brasileira.

   Com esse resultado é claro que a pesquisa publicada na Folha, apesar de ter sido manchete do jornal no domingo, foi solenemente ignorada por todos os demais veículos, fato inusual quando se trata de assunto polêmico. Nem a campeã (ou ex-campeã) da causa na imprensa, Dona Miriam, se dignou a tocar no assunto, preferindo o menos desgastante tema ecológico.

   Mas nem tudo foi legal na matéria. A Folha, para não perder o hábito, deu uma cascateada básica. Reduziu o Estatuto da Igualdade Racial, que se encontra em discussão no Congresso, à questão das cotas. E, logo na primeira página, diz que o assunto ainda precisa ser muito debatido, apesar da clareza com que os números que o próprio jornal publica demonstram que a questão têm uma correlação socioeconômica tão poderosa que o debate pode durar 100 anos, mas se a sociedade brasileira não mudar, os números também não mudarão.

Comments:
Você poderia ler de maneira diferente esses dados, querido Ivson. Quem está na base da pirâmide tende a concordar com qualquer medida vendida como vantagem aos mais pobres, ainda que isso seja um sofisma, porque o que as cotas asseguram é a vaga na universidade para uma minoria de um grupo com determinada coloração de pele. E muitos que estão no topo da pirâmide, com mais instrução, sabem que reduzir o nível de exigência para ingresso na universidade não é solução, nem para o racismo, nem para a exclusão social...
O Ali Kamel está coberto de razão quando diz que nunca houve no Brasil, como havia nos EUA, barreira racial para ingresso na Universidade. Lá, negro não podia entrar, nem passando em todos os exames. Por que só a universidade pública é alvo da campanha das cotas, e não se vê o mesmo empenho por políticas afirmativas do gênero onde realmente há barreira racista contra pessoas, como na publicidade, no setor de serviços, nos cargos de direção de empresas?? Populismo sempre agradou ao pessoal de menor renda aí das pesquisas, e sempre foi bem explorado pelos espertos, com apoio dos ingênuos.
 
Oi, Sérgio!

1. Dados podem ser lidos de várias maneiras. E torcidos por sofismas também.
2. As cotas que estão sendo discutidas sim, mas nada impede que seja concedida aos índios também, o que seria igualmente justo.
3. Certo, a barreira no Brasil não é racial é social. Pobre é que não entra na universidade, certo? Que triste é a coincidência de que a maioria esmagadora dos pobres é negra, né?
4. Sergio, velho, se a campanha para cotas na universidade pública já provoca essa reação furibunda e completamente desproporcional (se ela vai ser inócua, então para quê tanta preocupação e ódio?), imagina se fosse proposta cota para cargo de direção em empresas (quero crer que sua idéia seria para empresas públicas e privadas, certo? Se não, seria completamente incogruente)...
5. Você não deve estar prestando muita atenção nas peças publicitárias. A representação dos negros aumentou muito. Ainda longe do correto, mas no caminho certo.
6. Como não sou muito esperto, devo estar dos lados dos ingênuos, correto?
 
De ingênuo ou malandro você tem pouco. Acho que v, está na classe dos não-tão-brancos com complexo de culpa de classe média, querido Ivson. Também notei que aumentou a representação dos negros na TV. Mas concordas que é pequena, face à fatia deles na população?
Ninguém nunca disse que é inóicua a cota racial, pelo contrário. Quem a ataca e não por racismo ou proteção a privilégios de elite, acha que é uma distorção danosa ao sistema de méritos da universidade.
Não, não é coincidência que sejam negros grande parte da população pobre. Mas também há pardos e brancos. estes ficam de fora das cotas?
De todo modo, é boa a discussão, acho que concordamos no essencial, que é a necessidade da tal ação afirmativa. Só discordo da idéia de que são as cotas a melhor ação nesse caso. Defendo pressão sobre o governo para criação de cursos que preparem melhor para o vestibular os melhores alunos das escolas públicas (o Rio Branco dá apoio aos estudos dos candidatos negros ao Itamaraty; não criou cota racial), e mais uma catadupa de idéias...

(desculpe a demora entre um comentário e outro. tenho resistido ao passeio pelos blogues dos amigos, porque a cata de notícia anda dura).
 
Oi, Sérgio!

1. Sem culpa. Sei bem o que sofri (e o que meus pais sofreram mais do que eu) para botar a mim e minha irmã na universidade (o mestrado e o doutorado em Direito foram por conta dela. Eu, preguiçoso e não muito inteligente, sou só graduado em jornalismo). E só conseguiram porque meu pai era praça da Marinha, ou seja tinha emprego estável e relativamente bem remunreado (era a época da ditadura e militar ganhava melhor do que a maioria).

2. O que me irrita são a injustiça da condição dos negros no país e a hipocrisia de quem diz que realmente há racismo no Brasil, mas que ele não é decisivo para a situação dos negros do país e que tudo pode ser mudado daqui a uns 50 anos se investirmos mais em educação de base hoje (ou variantes disso). Só que como mostram vários estudos de órgãos daqui e de fora, o país tem aumentado o investimento em educação, só que esse fato não mudou um milímetro o perfil do problema: o negro é sempre o que tem acesso à pior educação e, por isso, é o mais pobre.

3. Aliás, isso me lembra uma entrevista da Bibi Ferreira. Ela disse que por década teve o maior constrangimento em buscar patrocínio de entes governamentais para suas peças porque achava que estava tirando dinheiro da educação e da saúde. O constrangimento acabou quando, depois de uns 40 anos, notou que a educação e a saúde continuavam ruins como quando ela tinha começado a carreira. Hoje, corre atrás de dinheiro público sem nenhuma dor na consciência.

4. Pardo é mestiço e mestiço é negro. Na teoria e na prática que pode ser aferida em qualquer blitz nas ruas do Rio. Aliás, só tomei um dura na vida: quando estava no banco de trás de um táxi em companhia de um colega, cuja pele é apenas um tom mais escura do que a minha (para comparação: a da minha irmã é dois tons).

5. Tô gostando muito de seus posts. Naquele primeiro a frase "Populismo sempre agradou ao pessoal de menor renda aí das pesquisas (...)" me confirmou a tese de que, em futuro relativamente próximo, os analistas vão pode atender por email.

6. Vais comprar o livro do Ali?

Abração
 
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