8.6.06

 

O sagrado e o profano

   A cara Tereza Cruvinel ao comentar ontem a invasão do Congresso pelo MLST (quem?) chamou o ataque de "profanação" da "sacralidade" daquela casa legislativa, tomada, pois, como templo da democracia e, na verdade, confundida com ela (daí o "ataque à democracia", também invocado pela colunista e por quase todos os jornais, rádio e tevês). Três comentários:

      1. O sagrado, em qualquer religião, é posto necessariamente fora do alcance dos mortais. Ora, a democracia, por definição, não pode ser posta longe dos mortais, já que são eles que a põem em prática. Segue-se que ou bem o Parlamento é democrático e por isso não pode ser um templo sagrado, ou bem é um templo sagrado e não é democrático;

      2. Na mesma linha de raciocínio, mas seguindo a direção oposta, as metáforas religiosas demonstram com precisão o problema central que leva a violências como as ocorridas anteontem em BSB: os democratas brasileiros procuram, a todo custo, se manter distante do povo brasileiro (e com sucesso). Assim, a população simplesmente não reconhece o tal templo da democracia, onde se aninham os tais democratas, como algo que se deva preservar. Pior. Identifica aquele lugar como o templo de uma seita odiosa, que merece mesmo ser destruído.

      3. E que seita seria essa? Ora, a dos fariseus, gente que, como dizia aquele outro, parecem templos caiados por fora, mas que estão podres por dentro.

   Portanto, se a idéia de que aquele prédio lá em Brasília é algum tipo de templo continua se propagando, podemos esperar maiores e mais violentas invasões. Fariam melhor os jornalistas se incentivassem a população a participar da vida democrática nas escolas, nos sindicatos, nas associações de moradores e em outras organizações da sociedade civil, e também passasse a reivindicar os seus direitos e cumprir os seus deveres. Assim, um dia, quem sabe, o Bananão acabe se tornando uma boa democracia popular, republicana e leiga.

Comments:
Pior do que isso foram os jornais, sempre a reboque do oportunismo e não dos fatos, dizerem que o "ataque" fora planejado. A verdade, pelo menos a sugerida pelos vídeos, é que a INVASÃO foi planejada. (Por incrível que pareça, o Globo saiu bem neste caso, usando o termo invasão na manchete, em vez de ataque.) Não há nada nos vídeos que indique uma premeditação da baderna, do quebra-quebra, das agressões... Não que isso torne o fato menos lamentável, mas fatos são fatos...
 
Ivson, sacaste bem e rápido. Só não entendi na alínea 3 (cara, a burocracia tem seu charme!) o negócio de "como dizia aquele outro", como se o "outro" fosse também um fariseu, do que discordo e assinalo aqui.
 
Olá, Jean! "Como diz o outro" é uma expressão antiga - do tempo de minha avó - e é uma maneira de citar uma frase conhecida, sem lhe citar o nome - por não se saber quem disse ou para fazer blague, como foi o caso aqui.
 
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