A excelente Tereza Cruvinel ironiza hoje o pega-pra-capar que é a briga pelo cargo de delegado regional do trabalho, perguntando o que de tão bom ele terá. Ela sabe, claro, e você também, provavelmente, mas vou contar uma historinha bem ilustrativa.

A moça recém-aprovada no concurso para a DRT-RJ chegou cheia de moral. Com menos de dois meses de casa montou de madrugada, junto com um colega também recém-concursado, uma banquinha na frente do Estaleiro Mauá, lá em Niterói. À medida que os peões iam chegando ela pedia a carteira de trabalho e o cartão de ponto. Como quase ninguém tinha nenhum dos dois, as multas se avolumaram no mesmo ritmo que aumentava a fila de operários para passar no teste. Um diretor do estaleiro, secundado por seguranças, ainda tentou intimidar a jovem e o colega, mas a peãozada rebarbou e eles aproveitaram para chamar a PM, que se convenceu da missão federal da dupla e lhes deu proteção até o fim da jornada. Esta terminou após a hora do almoço, quando os dois levantaram acampamento e forem embora, felizes, carregando um monte de autos de infração.

O sucesso subiu à cabeça da moça e ela ficou imaginando onde poderia repetir a façanha. Como na época estava casada com um coleguinha e ouvia dele as barbaridades cometidas contra os direitos dos jornalistas, decidiu ir em cima das empresas de comunicação. E já que era assim, nada melhor do que começar do alto, pensou ela, e armou blitz para cima do jornal imperial. No início, a garota ficou decepcionada: a burocracia imperial não é boba e raramente comete enganos no que se refere à legislação trabalhista. A decepção passou quando ela chegou à redação do jornal. Lá viu o que parecia ser uma compilação dickensiana de práticas contra a saúde do trabalhador: ambiente fechado, com ventilação deficiente; mal-iluminado; móveis que pareciam ter sido desenhados especialmente para provocar LER, etc. Contente, a jovem tascou um monte de multas e exigiu obras tais que praticamente levariam à reconstrução da redação. Foi embora, feliz por ter feito sentir ao império o pesado braço da lei.

No dia seguinte à blitz, a pobrezinha chegou à repartição e encontrou sobre a mesa um bilhete dizendo que era esparada no gabinete do delegado regional. O diálogo entre os dois teve mais ou menos o seguinte teor:

- O senhor me chamou?

- Chamei. O que a senhora pensa que está fazendo, hein?

- O que? Não entendi.

- Não se faça de desententida, mocinha! Que idéia foi essa de ir fazer blitz no jornal do doutor R., hein?

- Mas, senhor, lá havia várias irregularidades…

- Não interessa!!! O doutor R. e todas as empresas dele são intocáveis aqui, ouviu? In-to-cá-veis!

- Eu não sabia…

- Claro que sabia! Claro que sabia! Fez isso pra indispor a mim e ao deputado J. com o doutor R.! Pensa que não sei? A senhora é uma dessas petistaszinhas que se acham mais honestas que todo mundo! Mas aqui não vai se criar, não, ouviu? Não vai se criar porque eu não vou deixar!

- Mas…

- Não tem mas, nem meio mas! A partir de hoje, a senhora vai mudar de departamento! Vai para o xxxxxx!

A última notícia que tive da jovem foi que ela temia pegar LER de tanto carimbar papéis. Nunca mais voltou a fazer uma blitz.

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