3.5.09

 

O companheiro e a reforma política


   O companheiro Gaspari está há muito voltado para as coisas da América. É o que parece quando a gente lê seus textos contra a reforma política - que nem sei se é boa ou ruim, creio precisar de um debate mais acurado. Gaspari tem, basicamente, três argumentos: a) que a escolha do candidatos em lista deixaria tudo nas mãos dos caciques políticos; b) que a patuleia pagaria uma grana para eleger políticos povo que nada teriam a ver com ela, devido ao financiamento público de campanha; c) que esses deputados não teriam a ver com o povo porque o voto não seria nominal, mas na lista.

   Bom, o primeiro argumento mostra que Gaspari parece não ter ideia de como se faz política nos partidos brasileiros. Os caciques não precisam esperar uma lei para montar as listas do partido porque já fazem isso hoje. Os candidatos são escolhidos a dedo pelas cúpulas, da mesma forma que são escolhidos em quais os partidos vão investir e quais serão os "pererecas" - em geral líderes de comunidades pobres ou simples manés deslumbrados, usados parar passar "santinhos" e arrumar votos para os partido.

   "Para o partido, não. Para ele", dirá você. Errado. Você pode não saber, mas não vota no candidato, vota no partido. É assim: no fim da eleição proporcional (deputados e vereadores, no caso da eleição municipal), apura-se o número de votos válidos (todos, com exceção dos nulos) e divide-se pelo número de cadeiras em disputa. Obtém-se, assim, o "quociente eleitoral". Então divide-se o número de votos no partido pelo quociente, obtendo-se o número de cadeiras para o partido. Aí, vê-se quais deputados foram os mais votados em cada partido, que são os eleitos. Adivinhe quantas vezes um "candidato perereca", sem apoio da grana do partido consegue se eleger? Nem uma em 100. E, quando essa zebra acontece, na eleição seguinte, ele já não será mais "perereca", pois terá entrado no esquema partidário.

   Grana do partido? Pois é. Hoje já existe um financiamento de campanha. Chama-se Fundo Partidário. Cada partido tem direito a ele, dependendo do número de eleitos que tenha obtido na eleição anterior. É um financiamento de campanha, só não é público, pois ninguém sabe bem a quanto monta cada cota de partido e nem como este distribui internamente a bufunfa, que, aliás, vem dos nossos impostos.

   Pode até ser que você não soubesse como funciona o sistema, mas o companheiro Gaspari certamente sabe. Fica então a pergunta: por que ele se bate tanto para o sistema eleitoral brasileiro continue como está? Não deve ser pelos ótimos resultados que tem obtido ao levar às câmaras gente de tão elevado espírito público.

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