Picadinho diário de jornalismo e mídia em geral. Na Rede desde 1996
30.3.07
Gastura
A revisão da metodologia do IBGE que elevou o PIB do país - o que, de resto, já era sentido por quem se dá ao trabalho de andar a pé pelas ruas - está provocando azia nos coleguinhas que tiram mais prazer em espinafrar o governo do Nove-Dedos do que eu em calar os framengos com gol da vitória aos 48 do segundo tempo.
Dona Míriam, que usava os ratings internacionais para amedrontar quem queria votar no N-D em 2002, agora desfaz dos mesmos, dizendo que eles são meramente contábeis - ou seja, se baseiam em números apenas. Uma reclamação bem esquisita para uma colunista de economia, vamos convir. Já o Clóvis Rossi estranha que havia um elefante na economia brasileira e ninguém - peolo menos jornalistas e acadêmicos - o tinha notado. Isso apenas mostra que essas categorias não andam pelas ruas de comércio de suas cidades e muito menos viajam pelo país. Quem faz as duas coisas já tinha visto o tal elefante, que, aliás, era verde limão e grande à beça.
Com a hipocrisia de sempre, os jornais e demais veículos fizeram um escândalo com as palavras da ministra de Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, de que os negros não têm motivo para gostarem dos brancos por terem sido discriminados historicamente. É uma afirmação mais do que óbvia, mas serve - com as distorções de praxe - para a mídia brasileira fazer mais uma vez o seu papel de feitora e manter "os crioulos em seu devido lugar", mobilizando a "elite branca" (copyright Cláudio Lembo, ex-governador de São Paulo) na base do medo de mudança do "status quo". Admito, no entanto, que prefiro o estilo da professora primária de Duke Ellington ao de Matilde. O futuro gênio da música quando bem criancinha estudou numa escola para negros ricos de Washington (é, duas gerações depois da Guerra da Secessão, a mais sangrenta do Século XIX, havia negros ricos na capital americana. Já no Bananão, mais de 100 anos depois da Lei Áurea...). Lá, ouviu, e guardou para sempre, a lição que sua professora, ecoando o modo de ver o mundo da escola, passava para a turma:
- Nós, negros, não devemos discriminar os brancos. Isso é coisa de gente inferior e nós somos superiores. Devemos apenas demonstrar esse fato em nossas vidas.
Luiz Carlos Mansur - carioca de Marechal Hermes, ex-jornalista, hoje professor universitário de alto coturnbo, emigrado para além-mar há uns 15 anos e completamente "alusado" - avisa que, numa outra pesquisa de tevê, Oliveira Salazar foi escolhido como o "pior português de todos os tempos". Dessa pesquisa, é claro os coleguinhas não falaram.
Tá lá na página 20 de O Globo: o Brasil caiu para o quarto lugar no mercado de crédito carbono. Está atrás da Índia, da Ásia e da África. Duas perguntas:
1. Estamos contando o quê? Países ou continentes?
2. A Índia fica onde mesmo? (Dica para coleguinhas fracos em Geografia: está um pouquinho abaixo da China. Lado direito do mapa-múndi).
E por falar em futebol, aqui fica uma sugestão para os coleguinhas que cobrem esporte. Já que eles aderiram à cascata do Romário de que está fazendo mil gols, contando tentos contra times de rodoviários e até em jogos que nunca existiram, por que não fazer uma pelada do Vasco contra a seleção da Associação dos Cronistas Esportivos (Acerj)? Assim, o Baixinho faria o tal gol mil mais fácil.
Fui o primeiro repórter a fazer uma entrevista de página inteira com o atual coordenador de futebol do Flusão, Cláudio Ibrahim Vaz Leal, mais conhecido como Branco (JS, 1982, ele ainda júnior e eu estagiário). Por isso, e também por estar sempre cobrindo o Fluminense, acabamos conversando muito. Branco sempre se mostrou um cara inteligente, muito acima da média dos boleiros. Lembrei muito dele ao ver a notícia da nomeação de Franklin para a poderosa estrutura que tentará dar uma cara razoavelmente organizada à comunicação governamental.
- Pernambuco (Branco adora dar apelidos aos outros), a vida é que nem viaduto. Às vezes a gente está por cima, às vezes a gente está por baixo...
Marco Aurélio Mello, editor de economia do Jornal Nacional há quatro anos, foi demitido na sexta. Marco primeiro assinou, mas, depois, pediu para que seu nome fosse retirado daquele abaixo-assinado em que a Globo procurava se defender da cobertura parcial que fizera das eleições para presidente em 2006 e saído da cabeça de Ali Kamel. Disseram ao jornalista que ele não estava mais no perfil que a empresa esperava dos seus jornalistas. Argumento muito parecido foi usado para detonar o agora ministro Franklin Martins. Leia mais.
A Universidade Gama Filho, unidade Candelária, oferecerá, a partir de maio, o curso de Pós-graduação História & Imagem. Mais informações em http://www.nucleopos.com.br/curso5.htm.
De 27 a 29 de julho será realizado em São Paulo o V Encontro Internacional de Economia Solidária, que terá como tema "O Discurso e a Prática da Economia Solidária".Leia mais.
O professor da professor Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), Laurindo Leal Filho, deu uma boa idéia, do tipo que, por estarmos no Bananão, terá o destino do lixo. Leal Filho propôs que a criação de ouvidorias fosse um item a ser exigido pelo Poder Público para as empresas que quisessem obter ou renovar serviços de radiodifusão. "O publico não cria nenhum tipo de mecanismo para cobrar a qualidade desse serviço nem de exigir a presença de um ouvidor para dar seqüência às suas reclamações", disse o professor.
Não custa lembrar que só dois veículos de comunicação possuem ouvidorias em seu organograma e ambos são jornais: a Folha de São Paulo e O Povo, do Ceará.
Em sua coluna de hoje, o Companheiro Gaspari desnuda o porquê os barões da mídia, em especial as Organizações Globo, lutam tanto para tirar dos fiscais da Receita o poder de desconsiderar as empresas de fachada formadas por uma pessoa só, a chamada Emenda 3. O exemplo do jornalista citado pelo colunista não é exatamente fictício.
Pode-se dizer tudo do ministro da Globo, Hélio Costa, menos que ele não honra o salário pago seus patrões, os Marinho. Agora mesmo, ele demonstra sua pertinácia ao lançar a idéia de uma TV estatal do Executivo. À primeira vista, seria uma idéia de causar horror aos barões da mídia. No entanto, olhando mais de perto percebe-se que ruim mesmo para os patrões do ex-repórter do Fantástico seria o que vinha sendo gestado dentro do governo a que o ministro diz pertencer.
Nos últimos meses, associações de tevês educativas, estatais (Senado, Câmara, Justiça, etc), comunitárias e a Radiobrás vinham articulando, com as bênçãos do Secretário Geral da Presidência, Luiz Dulci, um Fórum Nacional de Comunicação, de onde pretende-se que saiam propostas concretas para a criação de uma rede pública de televisão de verdade. Ao jogar a farofa da "TV do Lula" no ventilador, Hélio Costa tenta atrapalhar o Fórum fornecendo um alvo e bom tamanho para os barões da mídia atirarem - como já se pôde ver nas matérias de jornais, como Folha e Estadão. NO momento, estão se criando as condições de transformar a discussão sobre o papel das tevês públicas e estatais no Brasil naquele linchamento que conhecemos do tempo da Ancinav e do Conselho de Jornalismo. Em breve, você vai ver só, vai ter articulista e colunista amestrado, tipo Arnaldo Jabor, acusando o Nove-Dedos de estar seguindo os passos do atual demônio da direita, Hugo Chávez.
Quando decidi criar o Cascata!, a idéia era pôr num blog exclusivo os atentados cometidas por jornalistas e empresas de comunicação contra o direito do cidadão e das instituições brasileiros ter acesso democrático aos meios de comunicação, seja como receptor, seja como transmissor de informações. Ao mesmo tempo, a Coleguinhas ficaria como blog que procuraria enfocar assuntos e pautas ignorados - por ignorância ou má-fé - pelos jornalistas.
Pois foi uma bola fora. Uma bobagem para dizer a verdade. Como é que fui pensar que, num tempo convergente e midiático, daria para separar essas coisas?
Devo estar ficando velho...
Bom, como nunca é tarde pra gente mudar de idéia e tentar acertar, a partir de hoje a Cascata! sai do ar e seu conteúdo volta a ser veiculado pela Coleguinhas. O blog continua lá, com os posts antigos, mas não será mais atualizado, ok?
Dia 22, quinta, a partir das 17 horas, no IFCS (Largo de São Francisco, 1, Centro). Pronto. Agora você já sabe dia, hora e local do início das transmissões da Rádio Pulga em 2007. É só aparecer lá e, se puder/quiser, colaborar com R$ 15,00 por semestre para ajudar a manter RP no ar na freqüência 102,5 (alcance Praça Tiradentes e arredores).
O pessoal do Centro de Mídia Independente (CMI) convida para o Grande Café Ipê, evento que começará às 18 horas do dia 1º de abrirl (ei, é verdade!) no IP:// (Rua Joaquim Silva, 71 Lapa). No programa, debate sobre cinema mudo com o professor Márcio Galdino, esquetes de teatro, apresentação dos malabaristas Edison, Lumière, Meliès e Porter, acompanhados da banda Almas Liberadas.
Nessa semana, mais tardar na próxima, a Coleguinhas, Uni-vos (ex-Picadinho Diário) chegará aos 200 mil acessos, contados desde 2003 (ou seja, não contando acessos entre 1996 e 2003).
Muito grato a todos pela assiduidade e, principalmente, pela paciência.
Bird na Amazônia: uma no cravo e outra na ferradura
Banco Mundial decide financiar projeto no Pará que deve desmatar ainda mais a Amazônia, mas também pode ajudar a combater o trabalho escravo. Leia mais.
Na sexta, dia 16, completa um ano o desaparecimento do jornalista e militante do movimento negro Roberto Delanne, ocorrido no bairro Santa Lúcia, em Duque de Caxias. Para marcar a data e impedir que o caso caia no esquecimento, a Comissão dos Jornalistas Afro-descendentes do Rio de Janeiro (Cojira) e outras entidades realizam ato às 19 horas de sexta na sede da ABI (Rua Araújo Porto Alegre, 71, Centro), exigindo que a Polícia esclareça o desaparecimento de Delanne.
A Congregação para a Doutrina da Fé, que você talvez conheça pelo seu antigo nome - Inquisição - condenou o jesuíta salvadorenho Jon Sobrino a não dar aulas até que mude suas idéias. O pecado de Sobrino é considerar Jesus mais homem do que Deus. Leia mais.
Começou ontem o primeiro curso de "Jornalismo de Políticas Públicas Sociais", oferecido pela Escola de Comunicação (ECO), da UFRJ. A disciplina foi criada em parceria com a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) e será ministrada pelo professor Evandro Vieira Ouriques. O curso da UFRJ vem se juntar ao de "Crítica da Mídia", oferecido pela faculdade de comunicação da Universidade de Brasília, também criado em parceiria com a Andi e que está na grade curricular desde o início do ano passado.
A idéia de ambos os cursos é que jovens que ainda não estão contaminados pelo vício das redações promovam uma mudança na agenda das empresas de Comunicação, de maneira que as questões sociais ocupem cada vez maior espaço e tenham maior possibilidade de discussão na mídia.
É sempre uma esperança que o jornalismo brasileiro volte aos bons dias. Mas, francamente, não acredito que os cursos influenciem os grandes veículos, que há muito deixaram o jornalismo sério de lado (a imensa maioria). No entanto, creio que a iniciativa é mais do que válida, pois pelo menos criará um grupo de jovens coleguinhas capazes de pensar criticamente e levar uma visão coletiva do mundo para os outros tipos de mídia que têm ganhado força e credibilidade nos últimos anos.
Um dos maiores sucessos da tevê britânica está chegando ao Brasil. É Sumo.TV, que não só publica vídeos dos internautas na internet, como o YouTube, como leva ao ar durante as 24 horas do dia os melhores por meio da Sky da terra da Rainha. A idéia é da Cellcast, que também produz conteúdon para telefones celulares. A Sumo.TV desembarca aqui em abril pelas mãos da TV Cultura, num programa de 45 minutos. Até o fim do ano, porém, os executivos da Cellcast acredita que o canal esteja nas tevês por assinatura no seu estilo all day
O ministro da Globo, Hélio Costa, disse que a decisão da Anatel liberando a Telefônica para entrar no mercado de tevê por assinatura, via DTH, foi "uma decisão de governo". Ou seja, que ele não levou uma volta da agência (e, talvez, da Dilma Rousseff). Só que, em novembro passado, o mesmo Costa garantiu que nenhum processo seria aprovado pela Anatel até ser editada uma Lei Geral de Comunicação de Massa.
Não levou volta... Tá bom....Tá legal...Eu acredito...
Rápida como um raio a Telefônica não só aceitou as "sugestões" da Anatel (post pouco abaixo) como ainda ofereceu-se para doar dois mil kits de DTH para serem instalados em escolas à escolha do governo.
Depois dos projetos de Nelson Marquezelli (PTB-SP), que favorece os radiodifusores, e de Paulo Bornhausen (PFL-SC), que pende para o lado das telecoms, agora é a a vez do PT, por meio dos deputados Paulo Teixeira (SP) e Walter Pinheiro (BA), fazer proposta sobre a regulamentação da convergência digital no Bananão. A grande novidade do projeto petista é a criação do conceito de "meios de comunicação social eletrônica de acesso condicionado", que inclui TV por assinatura, serviços de transmissão de conteúdos por meio do serviço de STFC (telefonia fixa), SCM (multimídia) e SMP (celular) e o que mais for inventado nessa seara. Lei a íntegra do projeto aqui (em PDF).
A Anatel acaba de conceder licença para a Telefônica operar DTH (antena-pizza), o que foi solicitado pela empresa em maio passado. Como espécie de contrapartida, a agência sugeriu (como se agência sugerisse e não mandasse...) que a nova televisão inclua em sua grade as TVs Câmara, Senado e Justiça, algo que só é exigido dos canais a cabo. Além disso, a Anatel quer que a Telefônica torne disponível um canal educacional, que transmita para escolas públicas de ensino fundamental, médio e superior.
Obviamente a Telefônica atenderá essas "sugestões" com um imenso sorriso nos lábios. Já os barões da mídia brasileira deverão, rodriguianamente, sentar no meio-fio e chorar lágrimas de esguicho, não só pela entrada da poderosa telecom em seu ramo sempre tão protegido como também com essa história de canal gratuito para escola pública. Afinal, nos dois casos, passou o boi, passa a boiada.
Por fazer o seu trabalho direito, cobrindo o assassinato de cinco pessoas, provavelmente por policiais, dois jornalistas estão ameaçados de morte em El Salvador. Leia mais.
O "In Band on Channel" (IBOC), padrão de rádio digital norte-americano, está em "promoção", mas só para emissoras que o adotarem até 30 de setembro. A "promoção" deve fazer com que as emissoras brasileiras se apressem a adotar o padrão sem que tenha havido qualquer debate público sobre sua adoção e nem mesmo parecer técnico da Anatel. Ou seja, a chegada da rádio digital ao Bananão vai seguindo o mesmo caminho da TV Digita - ao sabor e no ritmo determinado pelos barões da mídia. Leia mais sobre a "promoção" e suas implicações aqui.
Ok, ela é minha irmã, mas o post dela sobre essa discussão a respeito da maioridade penal é dos escritos mais brilhantes que li nos últimos tempos em relação a qualquer assunto. Como favor pessoal: não deixe de ler. Ele está aqui.
Leia aqui duas opiniões opostas sobre a questão da maioridade penal: uma de Siro Darlan, ex-juiz de menores do Rio e outra de Jorge Damús Filho, pai de uma vítima da violência.