15.10.07

 

Soprando forte


   Librianas talentosas e doidonas não existem apenas no rock. Que o diga Anita Belle Colton, nascida em 18 de outubro de 1919, em Chicago, e que se tornou conhecida pelo nome artístico que assumiu em meados dos anos 30: Anita O'Day. Fale uma droga, legal (principalmente contendo álcool) ou não, que fosse vendida nos anos decorridos entre 1930 e 1970, e eu afirmo que Anita O'Day a usou, em doses mais ou menos cavalares, num ritmo que fez com que os médicos a dessem como morta por duas vezes. Esse pequeno desvio comportamental, no entanto, não a impediu de ser uma das maiores cantoras de jazz de todos os tempos, mesmo tendo nascido sem a úvula - mais conhecida como campainha, aquele pequeno músculo engraçadinho que fica pendurado na garganta - e com a cor que certos "puristas" consideravam errada: Anita era branca e ainda por cima tinha olhos azuis. As dúvidas que essa combinação de características físicas levantaram no início de sua carreira foram atropeladas pelo seu modo de cantar "cool", com altas doses de ironia, e uma fulgurante presença no palco. Quem não teve a graça de vê-la em "Jazz on a summer day", documentário de Bert Stern sobre o festival de Newport de 1958, pode ter uma idéia auditiva do que era Anita, dentro e fora do palco, ao ouvir o seu maior sucesso, "Let me off uptown", no qual é acompanhada pela banda de outro notório "junkie", o baterista Gene Krupa, em especial pelo trompetista Roy Eldridge, que obedece com disposição à ordem "blow, Roy, blooooow" - comando que era puro Anita: na gíria da época, "to blow" era tomar droga.



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