23.12.04

 
Prêmio Esso: A tragédia de Felipe Klein


Li a matéria, que ganhou o Esso de Reportagem, no Multiply.

Não tem nada demais, ou pelo menos nada que um repórter com algum talento, alguma persistência e algum tempo não pudesse apurar. No quesito texto, teve um "todinho" e um "apê" que não têm a menor razão para estar ali, numa matéria melancólica, mas, no geral, a reportagem deu a medida da estranha cabeça do filho do ex-ministro Odacyr Klein e da personalidade daqueles que o cercavam. E foi isso que me chamou a atenção - é uma matéria sobre gente de verdade, com todo o sangue, todo o osso e toda a maluquice que trazemos em nós, não sobre escândalos ou capivaras. Se foi por esse motivo que ganhou o Esso - e creio que foi - o prêmio ficou em boas mãos.

 
Jornalista que não se cuida é feito de bobo

Há que se ter muito cuidado com os lobistas, gente perigosa, especialista em enrolar jornalistas, principalmente se eles não estiverem muito atentos. Exemplo do perigo pode ser visto hoje no Globo. O sócio da Dannemann Siemsen, empresa que representa um monte de multinacionais no país, José Henrique Werner, insinua - o cara ou é advogado ou tem uma equipe competente por trás e por isso não acusa ninguém - que os traficantes de armas e drogas usam as mesmas linhas logísticas dos piratas de CDs, DVDs, vestuário e etc e que a Administração estaria "fechando os olhos" para esse fato.

O interessante é que Werner não aponta nenhum indício que embase sua conjectura. Não cita exemplos de apreensões de artigos piratas nas quais tenham sido feitas também apreensões de armas e/ou drogas. Nem sequer aponta locais em que tenham sido apreendidos os dois tipos de materiais mesmo que não ao mesmo tempo. Essa lacuna fica ainda mais notável porque o próprio lobista afirma, na mesma matéria, que houve um aumento de 5% nas apreensões este ano. Ora, se houve um aumento, maior seria a probabilidade de que este laço entre pirataria de CD e crime organizado - sempre apontado pelo lobby das multinacionais em defesa de suas patentes - se visse confirmado.

Na verdade, essa suposta superposição de linhas vai contra a lógica. Mesmo que uma quadrilha de traficantes de drogas/armas também tivesse ramificação em pirataria - o que, em si, não é uma hipótese absurda - não seria muito sábio botar todos os produtos numa carreira (com duplo sentido, por favor) só. É que se a polícia marcasse uma rota de piratas estaria marcando ao mesmo tempo uma de drogas/armas, produtos mais valorizados, portanto mais protegidos e cuja montagem da base logística precisa de muitos cuidados e tempo. O raciocínio usado pelo lobista é bom para produtos legais, mas não para ilegais, que, por serem caçados pela lei, tem a procupação precípua de se esconderem.

A matéria, porém, não apresenta nenhum tipo de questionamento desse ou qualquer outro tipo à afirmativa do lobista. Assim, realmente, a tese de que não se precisa de diploma para jornalista se fortalece. Se é preciso apenas falar com alguém e reproduzir o que a pessoa disse, sem nenhum esforço crítico, realmente qualquer boy com Ensino Fundamental incompleto é capaz de fazer.

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