23.8.03

 
   O sempre atento Conselheiro dos Pampas manda o esporro que o Luís Erlanger, titular da Central Globo de Comunicação, deu, por escrito, na redação da Época e que a revista teve que, muito humildemente, publicar na íntegra na edição passada. É algo para se ler com o devido deleite, não só pelo esporro em si, como para se conhecer a versão que a Estrela da Morte pretende passar aos pósteros sobre a sua atuação nas Diretas Já. Um alerta e tanto para que evitemos que a receita do cidadão alemão citado no primeiro parágrafo volte a prevalecer sobre este assunto:

      O bom jornalismo recomenda que se evitem os clichês, mas, diante de erros publicados na edição especial sobre Roberto Marinho, não cabe outra coisa senão reconhecer que Goebbels, infelizmente, tinha razão. Uma mentira repetida mil vezes acaba tomando ares de verdade. E leva a erro inclusive profissionais bem-intencionados, que deveriam, no entanto, conhecer mais a fundo a história dos veículos para os quais trabalham.

      Na página 22, o redator se pergunta se a Globo seria um instrumento de interesses transnacionais, 'como a acusavam durante o regime militar'. Sem responder diretamente à pergunta, o redator diz que 'a Globo era vista como um prolongamento do braço poderoso do grupo Time-Life', com o qual fora assinado acordo para assistência técnica e transferência de know-how, desfeito alguns anos depois da fundação da TV Globo. E conclui afirmando que a ruptura do acordo 'não impediu a Globo de se tornar a quarta rede privada do mundo'.

      Vamos aos fatos: a) a imensa maioria do povo brasileiro jamais acusou a TV Globo de ser um instrumento de interesses transnacionais ou de ser um prolongamento de grupo americano. O redator esqueceu-se de explicar que tais acusações partiram sempre de uma minoria ruidosa, de quem a História se incumbiu de tirar a razão; b) conforme o depoimento de inúmeros profissionais que participaram do nascimento da TV Globo, Roberto Marinho teve de hipotecar todos os seus bens pessoais para que, no início, a TV Globo pudesse se financiar; c) e ela é hoje a quarta rede de televisão do mundo graças ao talento dos profissionais que conseguiu reunir e da qualidade da programação que pôs no ar, priorizando sempre a cultura brasileira e o interesse nacional. E não em decorrência de acordos assinados com grupos estrangeiros. No horário nobre, 98% dos programas são produções brasileiras; d) como bem disseram os filhos do jornalista morto, Roberto Irineu Marinho, João Roberto Marinho e José Roberto Marinho, a obra de Roberto Marinho, embora tenha partido de um ideal dele, só pôde ser concretizada porque foi uma aliança entre jornalistas, artistas, escritores, profissionais da cultura e o povo brasileiro.

      Na página 23, o redator diz que a Globo tem uma audiência potencial de 157 milhões de brasileiros, atingindo 98% dos 5.500 municípios. E conclui: 'Com esse poder, a Globo poderia criar e derrubar presidentes, privilegiar ou ignorar coberturas jornalísticas. Foi justamente contra esse poder que a população saiu às ruas, em 1984, para protestar. 'O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo', foi o slogan mais repetido na campanha pelas eleições diretas, que comoveu o país naquele ano, mas não empolgou a rede. A Globo demorou para cobrir os comícios e foi duramente criticada pela omissão'.

      Vamos aos fatos: a) a audiência potencial da TV Globo é de 159.067.633 brasileiros, atingindo 99,29% dos habitantes, em 5.445 municípios; b) a TV Globo jamais se sentiu com poderes para criar ou derrubar presidentes, tampouco agiu nesse sentido. Para nós, só o povo brasileiro tem esse poder; c) a TV Globo jamais privilegiou ou ignorou coberturas jornalísticas. Durante toda a nossa história, o que o jornalismo da Globo fez foi cobrir os fatos, dando-lhes a sua dimensão real. Nosso jornalismo, há anos, é líder absoluto de audiência e não por outra razão: o povo reconhece qualidade e credibilidade no trabalho que fazemos, qualidade que implica isenção e imparcialidade. É na Globo que a imensa maioria do nosso povo se informa. E, como todos somos absolutamente livres para mudar de canal, a alta audiência de nossos telejornais só pode ser explicada porque o povo reconhece a qualidade que lhe é oferecida; d) o povo não saiu às ruas em 1984 para protestar contra a TV Globo; saiu para exigir eleições livres para a Presidência da República; e) a Globo não demorou um minuto sequer para cobrir a campanha pelas eleições diretas. Já em março de 1983, quando Dante de Oliveira protocolou na Câmara a sua emenda, a Globo pôs no Jornal Nacional uma longa reportagem do então repórter Antônio Brito, com entrevistas com líderes oposicionistas, que se reuniram para traçar a estratégia para aprovação da emenda. Ao longo do ano de 1983, a Globo cobriu, com entrevistas gravadas e ao vivo, os principais passos da tramitação da emenda no Congresso; f) da mesma forma, a Globo cobriu todos os comícios e passeatas a favor das diretas em 1984, todos, inclusive o comício da Sé, no dia 25 de janeiro. Naquele dia, uma longa reportagem do Jornal Nacional, depois de mostrar a multidão, de dizer que ela não arredava pé dali nem com a chuva, depois de mostrar o palanque repleto de políticos e artistas, encerrava-se com trecho do discurso de Franco Montoro. O então governador de São Paulo afirmava que, após conquistar a anistia ampla, geral e irrestrita e o direito de eleger os governadores, os brasileiros precisavam conquistar o direito de votar para presidente.

      O nosso Centro de Documentação, que guarda todas as reportagens que são levadas ao ar, está à disposição dos profissionais de ÉPOCA para que comprovem o que aqui é dito. Será uma ótima maneira de conhecer a si mesmos e evitar, no futuro, que se repitam inverdades que mancham a própria imagem. Os erros cometidos por ÉPOCA, numa edição especialmente feita para homenagear Roberto Marinho, evidenciam apenas o acerto das Organizações Globo, que, desde 1999, criaram o 'Projeto Memória': uma iniciativa que se dedica a reunir documentos históricos e a colher o depoimento de centenas de pessoas que trabalham ou trabalharam no grupo. O objetivo é um só: preservar a história das Organizações Globo, para que ela possa ser contada como de fato se deu. Livre portanto das distorções e das mentiras criadas, ao longo dos anos, por alguns poucos setores da sociedade, minoritários, mas com grande poder de vocalização.

      De qualquer forma, esteve clara a intenção de ÉPOCA de prestar uma grande homenagem a Roberto Marinho. E a acolhida generosa desta carta é a prova de que, no jornalismo, embora acertar deva ser sempre a meta, quando se erra, admitir os erros e corrigi-los é a única forma de cumprir essa obrigação.

LUIS ERLANGER, Central Globo de Comunicação


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